Tradução

"O meticuloso exercício da escrita pode ser a nossa salvação" (Isabel Allende, em Paula)

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Volta no tempo

     Estar em Paraty me trouxe alguns traumas. Numa cidade do porte de Niterói (500 mil habitantes), mulheres podem sair à rua sozinhas para fazer compras, andar de táxi, ir ao cinema e até mesmo sentar-se um bar ou restaurante para um drinque ou uma refeição, sem que ninguém se preocupe com quem ela é, o que está fazendo, onde está o marido dela. Custei a perceber que aqui não deveria agir assim. Paraty tem um falso aspecto cosmopolita enganoso aos não iniciados. Litorânea, tem o mesmo espírito de uma cidadezinha do interior, no estilo de vida e na mentalidade de seu povo simples. Mulher aqui não anda de táxi sozinha (até anda, mas só com um taxista de confiança). Usuários de táxi, aqui, excetuando-se os turistas, só uma parcela ínfima da população, geralmente pessoas vindas de outras cidades, ou nativos mais abonados.
      Não foram poucas as vezes em que suspeitei não estar sendo bem vista por fazer em uma cidadezinha de 25 mil habitantes o que fazia em metrópoles como o Rio e Niterói: tomar um cafezinho numa cafeteria (certa vez, entrei em um restaurante na divisa do Centro Histórico e pedi meia garrafa de vinho, que tomei sozinha), comprar pão na padaria perto da Rodoviária, aproveitando que fora comprar passagens para o Rio, entrar em uma lan house (no condomínio onde moramos a internet é lenta e confusa ou simplesmente não pega), almoçar num restaurante a quilo, quando A. vai viajar. Todas atitudes comuns e necessárias na cidade grande. Aqui, é melhor abster-se dessas coisas. Saía muito em Niterói, sozinha ou com A., e aqui mantive esses hábitos. Até há pouco tempo.
       Difícil de acreditar, mas é assim. O jeito é andar sempre pela cidade acompanhada pelo A., como se estivéssemos no século XIX.  

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Poda desastrada

      Em 1 e 9 de julho, comentei sobre as podas de árvores e arbustos no canteirão da avenida principal do Portal das Artes - rua da padaria, para os íntimos. O pé de caqui plantado por mim, como se vê, sofreu sua terceira poda consecutiva em menos de dois meses - a última, a 9 de julho, apenas uma semana depois da de 1 de julho. Tenho observado que plantas que sofrem podas desastradas e excessivas tendem a definhar e morrer. Temo que isso aconteça com esse caquizeiro, que, segundo um dos moradores do bairro, que nos abordou há pouco tempo, iria "prejudicar os fios da rede elétrica". O caquizeiro só alcançaria esse tamanho dentro de uns seis meses. Antes, porém, como simples arbusto, já estava sendo podado - podado não, mutilado, com o corte de galhos grossos várias vezes seguidas.
      Há uma semana, essa pequena e inocente árvore sofreu sua quarta poda - poda não, mutilação - feita como sempre por uma firma terceirizada da Prefeitura, que, como comentei, não tem a menor ideia do trabalho dos coleguinhas da semana anterior. E toca a podar novamente o que já havia sido podado e repodado. De bela árvore adolescente que era, acabou se transformando num apanhado de tocos com um ar raquítico e adoentado, como quem cambaleia após uma pancada forte. Em suma, mais uma poda desastrada, à qual, disso tenho certeza, vão se seguir outras e mais outras, até que, um simples toco de tronco (que de tronco não tem nada, seu diâmetro não passa dos 8 cm, tão nova ela é), já não terá mais força para reagir. Uns poucos plantam e a maioria destrói. É pena.

sábado, 2 de agosto de 2014

Flip

      Escrevo no terminal de computador do Instituto Moreira Salles, no Centro Histórico, perto da Praça da Matriz. A Flip, iniciada na quarta-feira, já encheu a cidade de turistas. Temos assistido a algumas mesas literárias e aproveitado das coisas boas que pipocam por toda a parte. Numa cidade lotada, é difícil escolher entre tantas atrações. Uma delas é o centro de recepção do Instituto Moreira Salles, onde, durante o dia, o público é recebido com cafezinho, capuccino, biscoitos, vinho tinto e de quebra, à noite, pequenos (no tamanho) shows. Nos intervalos, compramos livros e CDs.
      Houve mudanças no evento Flip. A tenda do telão, que com a tenda dos autores, atraía um público de milhares de pessoas, confortavelmente instaladas e ao abrigo do sol e da chuva, já não está mais na Praia do Pontal. Foi praticamente cancelada, no meu entender, porque instalar dois ou três telões (menores, por sinal) no exterior da tenda dos autores ou junto à cafeteria ou ainda, na Praça da Matriz, simplesmente retirou bastante do brilho do evento. Agora há apenas uma tenda, a dos autores, em formato diferente, menor e com aparência totalmente sem graça. Para a organização do evento, está tudo bem: a capacidade da sala é a mesma (pode ser, mas perdeu-se metade da capacidade, com a retirada da tenda do telão) e "a tenda nova é mais comprida e a visibilidade do palco vai melhorar". Só rindo. A visibilidade do palco, na tenda anterior, era excelente. Não havia o que mudar.
       Os operários aprovam. Segundo eles, a nova tenda é bem mais fácil de montar. Mas o que os operários têm a ver com isso? Ouvi comentários negativos sobre as mudanças. A impressão é de que a Flip encolheu.
      Aproveitei a festa para distribuir exemplares de meu livro A casa antiga ao público em torno das tendas (ou melhor, tenda). Quem quiser lê-lo, é só pedir através deste blog (através dos comentários). O lançamento desse livro foi realizado em 2010 na livraria da Travessa, no Rio. Deixei exemplares sobre o balcão da cafeteria da Tenda dos Autores, com autorização, é claro. Sumiram rápido. Quando os entrego pessoalmente, as pessoas tendem a desconfiar de venda e a primeira reação é a recusa. Nada contra - eu também faço isso às vezes. Acho que me confundiram com algum escritor participante da Flip: tirei fotos, dei autógrafos, recebi elogios. As pessoas ficaram encantadas.
      Assistir às palestras deixa-me com um intenso sentimento de frustração. Lembra-me essa festa, com seu colorido, a escritora frustrada que sou. Terrível substituição essa, esse auto-engano que, ao mesmo tempo que me reconcilia comigo mesma, mostra o tamanho de meu abismo pessoal. Apud Fernando Pessoa: "Sei que não sou nada/ nunca serei nada/ não posso querer ser nada.// À parte isso, trago em mim todos os sonhos do mundo".

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Livros

       Meu irmão R., cunhada Andréa e a garotinha deles, Giovanna, estiveram aqui em casa para o final de semana. Faz frio. Nas saídas à noite, já precisamos usar casaco e, para mim, o indispensável chapéu estiloso de inverno. Não por estilo, mas para diminuir o frio nas orelhas e no topo da cabeça. Quem mandou ter pouco cabelo? Antevejo um inverno rigoroso durante a Flip: noites geladas, chocolate quente tomado nas mesinhas do pavilhão de entrada, livraria recheada de títulos. Outra coisa boa é a edição Flip da ótima revista Piauí, com entrevistas e matérias sobre os escritores participantes. Amor visceral pelos livros, como o meu (e o de muita gente mais) é coisa bem pessoal, sobre a qual não deve recair nenhum juízo de valor. É mais ou menos, creio eu, como gostar ou não de determinada cor ou iguaria: não tem explicação. A gente ama, e pronto.
      Giovanna ama os livros desde cedo. Com 10 anos, é a melhor aluna de redação de sua sala e termina de ler um livro em apenas dois dias. Passou o fim de semana aqui em casa lendo nada menos que o Diário de Anne Frank. Seu sonho é ser escritora e pintora, exatamente o que eu queria ser, quando tinha essa idade. Abandonei a ideia de ser pintora em favor da literatura (nunca ouvi falar de alguém que tivesse tido êxito ao mesmo tempo nos dois ofícios) e acabei não sendo nem uma coisa nem outra. Apenas uma diarista de blog (meu deus, o que é isso?), porque nem blogueira eu sou.
       Em Santo Antonio de Pádua (RJ), aos sete ou oito anos, eu lia em espanhol (!), um livro infantil chamado Mis cumpleaños. Não tenho a menor ideia de como foi parar em minhas mãos. Possivelmente presente de meu pai. Menina solitária que era, entrei assim em contato pela primeira vez com a boa literatura, de Alexandre Dumas (Memórias de um médico) a Césare Cantu (História Universal), além de outros títulos pouco usuais nas mãos de uma menina de 11 anos. Também adorava a página literária do O Jornal, um dos bons periódicos de uma época de muitos jornais (década de 50); Aí nasceu o sonho de ser "escritora e pintora", como diz hoje Giovanna. Herança atávica do lado materno, italiano.
      Tomara que ela tenha mais sorte - ou perseverança - do que eu.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Millôr e o cinto de segurança

      As chuvas voltaram a cair sobre Paraty, com aquela uniformidade que evidencia a chegada do inverno. A Flip (Festa Literária Internacional) já se anuncia, pinçando de algum lugar o nome de Millôr Fernandes como o homenageado do ano. Li no Globo (Caderno Prosa e Verso) extensa matéria sobre o homenageado. Costumamos armazenar na mente estereótipos sobre pessoas e lugares (parece que precisamos disso para nos sentir seguros, fulano é isto, sicrano é aquilo), talvez como uma forma de defesa contra o desconhecido. Eu guardara uma dessas sobre o Millôr. Para mim, apesar de ser um humorista, era irascível, mal-humorado (isso acontece com muitos deles, que no fundo são grandes depressivos) e um tanto ou quanto arrogante. Essa imagem só piorou quando iniciou, em sua coluna diária no extinto Jornal do Brasil, uma campanha contra o uso do cinto de segurança (que na época ainda não era obrigatório).
      Para Millôr, cinto de segurança (que comprovadamente já salvou milhares de vidas após sua adoção obrigatória) só servia para dificultar a saída  do carro em caso de acidente. Hipoteticamente, os passageiros dos bancos da frente morreriam afogados caso o carro caísse em um rio ou canal. Ou não conseguiriam abrir o fecho do cinto, numa eventual colisão, porque ele enguiçaria irreversivelmente. Hoje já se sabe, estatisticamente, que o número de vidas salvas por seu uso ultrapassa muitas e muitas vezes o número dos que, hipoteticamente, morreriam por não conseguir abri-lo a tempo. Como sempre fui a favor da adoção do acessório, antipatizei-me ainda mais com Millôr.
      Coincidentemente, algum tempo depois de expressar com frequência sua opinião sobre o assunto (não sei precisar quanto, se meses ou um ano), Millôr perdeu sua coluna no JB. Não sei se essa opinião, a meu ver desastradamente veiculada  (embora fosse um direito seu), teria desagradado a direção do jornal e influenciado em sua saída. De qualquer maneira, a matéria do Prosa e Verso mostrou-me uma dimensão maior de sua estatura como intelectual. Tratava-se de figura cultíssima, para dizer a verdade. Posso apreciá-lo um pouco mais, idiossincrasias à parte.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Mais poda? Socorro!

      Chegou, como eu previra, uma nova turma de trabalhadores da Prefeitura. Parecem um bando de formigas gigantes: máscaras protetoras, cortadores de grama afiados como garras, chamativos uniformes cáqui cobrindo todo o corpo, protetores de cabeça com óculos saltados (evitar que eventuais ciscos de grama cortada voem para os olhos, daí a aparência de formigas). Dois deles seguravam pelas pontas uma enorme faixa de plástico negro, que esticavam na vertical ao longo do canteiro, aparentemente para evitar que pedaços voadores de grama atingissem os carros que eventualmente passassem. Não, nada de gente socando a terra com primitivas enxadas e vassouras!
      E a poda maluca recomeçou. Imagino que caiam mais galhos de árvores do canteiro central. A impressão que tenho é de que, variando conforme os dias da semana, as equipes não fazem a menor ideia do trabalho umas das outras. E todas, diligentemente, mostram do que são capazes, raspando o chão com máquina zero, o que deixa a terra careca, e abatendo galhos de árvores como um cabeleireiro doido metendo a tesoura nas madeixas das clientes. Tremendo aparato, pífio resultado! E, já que o local influencia no global, imagino que isso nada mais é do que, em ponto infinitamente menor, o que acontece na floresta amazônica e na Mata Atlântica (aliás, estou sempre batendo na mesma tecla, mas é que sou muito emocional a esse respeito).
        Por falar nisso, a Avaaz.org (rede de campanhas globais on line, que tem o saudável propósito de mobilizar a sociedade civil global de maneira que esta possa influenciar em questões políticas internacionais) acaba de lançar uma de suas muitas campanhas para salvar o planeta. Imagino se isso ainda é possível. A própria Avaaz (que já conta com 36 milhões de membros no mundo inteiro), entra em contradição involuntária: mesmo que essas campanhas influenciem os governos a tomar medidas a favor do clima, agora, ainda temos tempo? A própria Avaaz responde, ao postar (à guisa de estimulo para as pessoas aderirem à campanha) links para textos como os abaixo:
       "Derretimento de geleiras gigantes ultrapassou ponto de retorno, dizem cientistas" (Folha de S. Paulo):
      "Nasa afirma que derretimento de geleiras na Antártica é irreversível" (revista Galileu);
       "Prepare-se para o ponto em que não haverá retorno sobre o clima" (Político, em inglês);
      "Com a evolução  científica, dúvidas sobre mudanças climáticas desapareceram" (revista Época).
      Se as mudanças climáticas já são consideradas praticamente irreversíveis (e, no meu entender, a população já está sendo sutilmente preparada para a catástrofe, tanto através de matérias como essas, em jornais e revistas categorizados, científicos ou não, como de matérias pagas, que têm saído ultimamente em revistas populares), de que adiantam, a esta altura, campanhas para minimizar seus efeitos?
      Melhor voltar para o meu microcosmo de plantas, canteiros e podas. Hoje à tarde saberei se minha árvore ainda existe como tal, ou se virou um melancólico toco emergindo da terra nua!

terça-feira, 1 de julho de 2014

Poda abusiva

      Trabalhadores da Prefeitura deceparam pela terceira vez (em três meses) os galhos da árvore que plantamos, a partir de uma semente, no canteiro central da avenida próxima a nossa casa. Trata-se de um pé de caqui, que chegou a atingir 2 metros de altura. Foi quando sofreu a primeira poda. Aparentemente, para retirar um galho mais afoito que avançava até o asfalto e, hipoteticamente, iria atrapalhar o fluxo de carros. Para não perder o hábito, aproveitaram para cortar mais alguns galhos. Pouco mais de 20 dias depois, outra leva de funcionários  passou com seus facões ou o que seja e eliminou mais alguns galhos. Foi drástico! Aquela, sim, doeu no coração. Galhos grossos foram cortados pela base, restando apenas o tronco e dois ou três mais. Anteontem, passando pelo local, vimos uma turma da Prefeitura limpando o canteiro central com ancinhos e enxadas. Meu coração gelou. Pensei, mas não quis acreditar: "Eles vão cortar os galhos outra vez".
      Quase pedi clemência para com aquela árvore, prestes a ser mutilada. Mas não, não iriam entender. Não os culpo. Não tiveram formação educacional, nem mesmo funcional, para respeitar o verde, no primeiro caso, e aprender a realizar podas necessárias, que beneficiem, em vez de eliminar a planta, no segundo caso.Ontem, vi que o pior tinha acontecido. A terceira poda, ainda mais desnecessária e abusiva que as anteriores, eliminou os galhos que restavam, deixando-a apenas no esqueleto. Impotente, não sei a quem protestar. Talvez à Prefeitura? Isoladamente? O próximo passo, a próxima poda (porque ela vai acontecer, porque mais uma turma vai chegar, sem saber que aquela árvore já foi "tratada"), deixará apenas um tronco agonizante e uma certeza: brasileiro odeia o verde. E um consolo paradoxal: perto do desmatamento da Amazônia e da Mata Atlântica, isso não é nada!

sábado, 21 de junho de 2014

Inverno que chega

      Os dias já  estão mais frescos, principalmente no final da tarde. Paraty está mais do que nunca ocupada por gringos de todos os matizes - especialmente argentinos e franceses. Muitos aproveitam a Copa do Mundo para estender a viagem até aqui. Entendo que os argentinos venham em bando, afinal eles moram "perto", mas por que tantos franceses se abalam da distante Europa para nos conhecer? Além dos turistas eventuais, dizem que há muitos aqui radicados. Imagino o que esses forasteiros sentem ao ver tanto descaso. Às vezes sinto vergonha por eles. As calçadas são uma verdadeira pista de obstáculos: degraus de acesso às casas tomam metade do espaço, caixas de esgotos são cobertas por barras de ferro, sequência do piso têm desníveis, a pavimentação é desigual. A limpeza das ruas é excelente, graças ao trabalho individual dos garis, mas as latas de lixo estão imundas, quebradas, sem tampa. Vergonha para qualquer cidadezinha simples do interior, quanto mais para aquela que se orgulha de ser um dos principais polos turísticos do Estado.
     Na beira-rio, um dos locais mais belos e que deveria receber atenção especial, a conservação inexiste. O ordenamento paisagístico de poucos anos atrás melhorou seu visual (tive ocasião de ver o antes e o depois), mas... os bancos com base de concreto e assento de barras de madeira, depois de alguns anos sob sol e chuva, perderam completamente o verniz e a madeira está apodrecendo. No centro da cidade, várias foram arrancadas. Sem falar na ponte inacabada (embargada pelo Ministério Público) sobre o rio Perequê, é um monumento ao descaso. A vegetação nativa às margens da estradinha entre o Portal e o centro da cidade está mais rala, em comparação a três anos atrás, derrubada por vândalos, sabe-se lá com que objetivo. É tudo muito triste. Talvez seja mais fácil a um olhar "estrangeiro" como o nosso perceber essas mudanças, mas não podemos, reclamar. Afinal, somos "forasteiros", sem direito de opinar!

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Blogs e Flip

      Festa de aniversário de A., no sábado, no restaurante Jambeiro, em Niterói. Presença de seu lado familiar. Dormimos em casa de Gui e Jô. No domingo, em casa de minha irmã, em Maria Paula, na linda casa sobre uma elevação, foi a festa dela e, de quebra, mais uma vez, de A. Deixo isto apenas como registro, pois encaro este blog como ele deve ser, de crônicas sobre a vida em Paraty, e nada mais. Intimidades e familiaridades não têm vez. Fotos de família, comentários sobre filhos e netos, sei não... bem, no Facebook ainda passa. De qualquer forma, depois de três anos aqui em Paraty (nós nos instalamos em maio de 2011), comentários sobre a vida na cidade só são possíveis quando ocorre algum incidente diferente no dia-a-dia. Como no caso dos indiozinhos, da semana passada.
      Já se fala oficialmente na edição 2014 da Flip. Pela primeira vez será homenageado um autor contemporâneo, Millôr Fernandes. Enquanto isso, vou dar uma olhada em meu outro blog, Anel de pedra verde, que está parado. Estou estudando uma forma de transformar os dois blogs em um só, com o outro vindo antes deste. Porque, na verdade, este é uma continuação daquele. Para os próximos dias.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Want to eat

      - I want to eat!
      A frase, solta no meio da tarde no Centro Histórico, soou como um disco arranhado aos nossos ouvidos. Pudera: quem a proferira fora um indiozinho guarani entre seis e oito anos (nunca se sabe a idade certa, eles são miúdos de porte), que a jogou para cima de dois parrudos senhores que palmilhavam as pedras da Rua do Comércio, olhando para todos os lados com curiosidade gringa. Como assim, eu quero comer, mas, em inglês? Desde quando indiozinhos guarani pedem comida em inglês? Pessoalmente, penso que eles não queriam eat coisa nenhuma. O que eles gostam mesmo de fazer com as moedas que ganham nas ruas é: 1) ir à lan house acessar a internet e 2) lambuzar-se de sorvetes na sorveteria da Av. Roberto Silveira. Como eu já vi, várias vezes.
     Esses indiozinhos, na verdade, não param de me surpreender. Remanescentes dos verdadeiros donos desta terra de ninguém, onde cada um faz o que quer, eles são os grandes esquecidos de nosso país. Ao lado dos movimentos de consciência negra, deveria haver também um movimento de consciência indígena. As vozes negras já se alteiam o suficiente em protesto, para pelo menos começarem a ser ouvidas. Nossos índios, não. São os grandes esquecidos da mídia, dos movimentos sociais, das organizações de direitos humanos. Não me falem dos poucos momentos em que ganham as manchetes, como ocorreu na invasão da Câmara dos Deputados, da Uerj ou de Belo Monte. Esses rompantes de revolta, pelo que sei, até hoje resultaram em nada.
       Falo do dia-a-dia, do indivíduo, do ser humano que não tem cotas raciais nas universidades (por falar nisso, eles são incluídos na lei das cotas? quem souber me informe); que não tem escolas onde tenham os mesmos direitos que os demais, mas em que sua cultura seja respeitada e preservada. Infelizmente, falta-lhes a base necessária para começarem, eles mesmos, esse movimento. Os primeiros habitantes do Brasil, legítimos donos desta terra e autênticos brasileiros que são, merecem respeito, carinho, cuidado e atenção. E, sobretudo, educação de qualidade. Mas esse é um tipo de miragem que eu já desisti de esperar.
   

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Táxis e gente

      Por termos chegado muito tarde em casa, não fomos ver Blue Jasmine, na mostra Woody Allen, na sala do IPHAN, parte da programação do Cineclube Paraty. No próximo domingo, será exibido na Casa da Cultura, o premiado O som ao redor (2012), de Kleber Mendonça Filho. Desta vez, iremos. Temos andado bastante pelas pedras do Centro Histórico. Geralmente, vamos a pé pela estradinha (Av. Otávio Gama), com suas curvas e restinhos de Mata Atlântica nas laterais, da qual tanto já falei, pegando sombra e sol. A volta, em 90% dos casos, é de táxi, mas só porque geralmente voltamos para casa com algumas compras. São cerca de 3 km de ida e mais 3 km de volta, mas fazemos isso com prazer, é nossa caminhada matinal saudável. Não raro, um conhecido passa de carro e oferece carona. Só aceitamos em dois casos: ou estamos com muita pressa, ou atrasados. Fora isso, a caminhada é regra geral.
      Quanto aos táxis, a corrida aqui é, como vulgarmente se diz, "no tiro", mas não aleatoriamente e sim com autorização da prefeitura. Perguntamos a um taxista a razão. Segundo eles, como a maioria da população não usa táxis (sem condições) e os turistas também passam longe dos pontos (a não ser quando chegam à Rodoviária, se vêm de ônibus, idem na saída), se cobrarem pelo taxímetro, irão à falência por falta de passageiros. Uma corrida como a que fazemos quase diariamente, até o Portal, custaria, num táxi normal, cerca de R$ 8,00 a R$ 10,00. Quem não é nem turista, nem nativo da terra, e não tem carro, como nós, fica em desvantagem, obrigado a utilizar os táxis, a um preço alto (atualmente, de R$ 20,00 para bairros próximos, como o nosso, com um trajeto de cerca de três quilômetros até o centro). O preço aumenta para bairros mais distantes.
      Taxistas daqui (como em toda parte) sabem da vida de todo mundo, do prefeito ao mais humilde trabalhador de obra. A., que é muito falante, contou que um seu amigo, que mora aqui há muito mais tempo que nós, aconselhou-o a não falar (mal) de ninguém, porque todo mundo se conhece. Há muita gente aparentada e fatalmente o alvo do comentário vai acabar sabendo. Cidade pequena tem dessas coisas. Eu, como tenho horror de quem fala dos outros pelas costas, estou livre disso, até porque falo pouco. Não quero com isso dizer que A. age de forma tão deseducada: é que, por ser extrovertido ao extremo, ele tem dificuldades de filtrar o que fala, exatamente o oposto de mim. Isso está até ocasionando um problema de logística social: A. faz amigos, conversa, cumprimenta, acena para as pessoas, aparece, enfim, e eu... pelo contraste de temperamentos, faço o papel da antipática! Noto que, socialmente, as pessoas acabam se dirigindo somente a ele. Mas tudo bem.

sábado, 31 de maio de 2014

Festa do Divino

           Amanhã, programação garantida: Blue Jasmine, de Woody Allen, na Casa da Cultura. Pretendo ver (e, em alguns casos, rever) todos os filmes da mostra. Quanto ao mais, os dias estão ensolarados, mas um friozinho noturno já começa a antecipar os dias de inverno. Com a cidade cheia de turistas para a Festa do Divino, a vontade é flanar pelas ruas de pedras... Nossos pontos preferidos são o Café Pingado, um charmoso café  no Centro Histórico, a Praça da Matriz (para ler, sentados em  um banco, o jornal de domingo), as livrarias (há duas no Centro Histórico, uma delas na Casa da Cultura). Da mais recente vez em que estivemos lá, a sala tinha sido esvaziada. Uma pena se foi desativada. Para compensar, foi aberta uma novíssima, também no Centro Histórico, com um café, digna das melhores livrarias do Rio.
     

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Filme e árvores

        Como eu antecipei, fomos ver Billy Elliot, na sala do IPHAN, na Praça da Matriz, na semana passada (pequena avaliação:  um bom filme, no sentido comercial do termo, um tanto esquemático, com roteiro abusando de soluções prontas, de impacto, para agradar a grandes platéias). Na sala fronteira à praça, rola sempre uma exposição agradável, de pintura ou artesanato. A entrada na sala de exibição se dá pela lateral do prédio, uma portinha sem nenhuma indicação de que ali se assistem filmes. Conhecemos a programação do cineclube por acaso, através dos informes afixados na Casa da Cultura. Mesmo não conhecendo ninguém ali (afinal, a entrada é gratuita), passamos a frequentá-las. Com o passar do tempo, encontramos conhecidos e nos habituamos às caras novas, inclusive dos realizadores das mostras, que conhecemos, embora superficialmente.
      Ontem, domingo, assistimos na Casa da Cultura a Vitus, este de qualidade um pouco superior. E assim vamos nos abastecendo, de enxurrada, de uma programação atualizada, com filmes vencedores de várias categorias de Oscar (coisa que não conseguíamos fazer em Niterói). A programação, que priorizava filmes mais antigos, hoje parece mais diversificada.  Quanto aos que assistem, com um mínimo de bom-senso, nada posso dizer. No geral, são todos simpaticíssimos. No próximo dia 1 de junho, será aberta na sala do IPHAN a Mostra Woody Allen (os demais filmes serão exibidos na Casa da Cultura). Nesse mesmo local serão exibidos a seguir filmes do calibre de O som ao redor, Capitalismo, A menina que roubava livros, A grande beleza, este, Oscar de melhor filme estrangeiro, que abrirá a Mostra Fellini (os demais filmes dessa mostra serão exibidos na Sala IPHAN).
       Passando a outros assuntos, tenho um lado meio rústico, ligado ao meio ambiente e ao respeito pelas árvores. Adolescente (entre os 12 e os 16 anos), plantava, no terreno ao lado da casa onde morávamos em São Gonçalo (RJ), na encosta baixa de um morro, mudas de plantas e sementes. Aqui em Paraty exercito esse lado plantando mudas de árvores (que cultivo a  partir de sementes) no canteiro central da Av. Roberto Silveira. Já falei disso em meu outro blog, Anel de pedra verde (em que não escrevo mais, mas que continua no ar). De quatro mudas que plantei, no início de minha estadia em Paraty, apenas uma sobreviveu, um pé de pinha (fruta-do-conde) ou de caqui, já nem sei mais, que hoje tem uns dois metros de altura. Pena que, mal chegou ao tamanho de um metro e pouco e começou a chamar a atenção, foi vítima de duas podas desastradas (quem as realiza? não sei, mas posso adivinhar). A segunda, totalmente sem sentido, quase o matou. Foi feita há cerca de um mês e cortou galhos já grossos, pela base, apenas porque avançavam uns 20 cm sobre a rua. Só que não atrapalhava em absoluto o trânsito, pois os carros passam do lado direito da pista, enquanto a árvore fica do lado esquerdo. O quê? Quem se preocupa com algumas árvores de rua? Pois é, mas o espírito da coisa é o mesmo, quer se trate de uma árvore de rua, quer de uma inteira floresta amazônica. Por falar nisso, a Mata Atlântica continua sendo devastada!
      Brasileiro tem raiva de plantas! Como sou teimosa, plantei mais. Pés de guando (!), que joguei num canteiro lá em casa e já estavam com um metro de altura, começando a florescer e, ao mesmo tempo, a definhar, pelo espaço exíguo em que estavam. Fiquei com pena e passei-os para o canteirão central da Roberto Silveira. E ainda um abacateiro que estava na mesma situação, com o desenvolvimento paralisado devido à falta de espaço. A. me acompanha nessas investidas e me ajuda a carregar o material (uma pequena pá e uma garrafa d'água para minorar o trauma do transplante). Faz duas semanas, e até agora eles estão bem, com as folhas antigas caindo e brotinhos apontando nas extremidades. O melhor de tudo é que não sou a única. Três pessoas (todas mulheres), nos abordaram, elogiando nossa iniciativa e dizendo que fazem o mesmo. Todas moradoras do bairro!

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Cinema

      Domingo, 18 de maio. Aniversário. Fomos ao Punto Divino, aqui em Paraty, para comemorar com uma bela massa (lá são muito boas) e um vinho. E mais não digo, porque acredito que as redes sociais (na verdade, um blog não é, lato sensu, uma rede social) não foram feitas para a exposição pública das cotidianidades pessoais. Sim, acredito que esta palavra, cotidianidades, não seja dicionarizada, mas enfim, aí está. Creio estar chegando, previsivelmente, a um tipo de saturação de Paraty, visível nos meus mais recentes posts. Por que escrevi, no mais recente, "o que estou fazendo aqui em Paraty"?. Sem falar de alguns, anteriores, em que comecei comedidas críticas ao que aqui vejo, em termos de cidadania e serviços públicos. Sim, o deslumbramento passou. Veremos se disso tudo vai resistir alguma coisa.
      Falemos de coisas boas. O cinema de domingo está cada vez melhor. De domingo e das quartas-feiras. Depois de uma bela mostra Almodóvar, na Casa da Cultura, e, no domingo passado, do sensível A música segundo Tom Jobim (só música, desde o início de sua carreira, sem entrevistas ou comentários), teremos, hoje, Billy Elliot, no IPHAN (sede do órgão, na Praça da Matriz). Mais depois.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Tempo firme e nebuloso

        Que será que estou fazendo aqui em Paraty?
        Como ir à biblioteca Cora Coralina, no Condado, para doação de alguns livros, se as notícias que chegam de lá falam do aumento da criminalidade no bairro (que é bem distante do nosso)?. A. se recusa a ir (iríamos de táxi ou de ônibus) e já disse que, se eu quiser, posso ir sozinha (!), de táxi, vapt-vupt. Na Casa da Cultura, domingo passado, assistimos a metade de Gravidade, o filme de Alfonso Cuarón, com Sandra Bullock e George Clooney, um dos indicados ao Oscar. Metade porque A., prosaicamente, começou a espirrar e teve de se retirar (num filme de imagens sólidas e ritmo lento como esse, seria incômodo demais alguém espirrando). Saí atrás, mas pretendo ver o filme todo assim que possível.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Dias iguais

      Os dias se sucedem, sempre iguais. Ló, o nosso marceneiro, aprontou a estante de livros que há muito tempo eu planejava instalar no escritório. Lá estão também um sofá-cama verde-alface, uma cadeira de madeira, de braços arredondados, que eu mesma pintei de verde-folha . Chegou ao Manacá, nosso anterior condomínio, em um bonito tom de verniz na cor cedro, mas, por falta de espaço, tivemos de deixá-la do lado de fora, na entrada. Embora não pegasse chuva, porque ficava sob uma cobertura, foi castigada incessantemente pelo sol durante dois anos, o que deixou-a totalmente descascada.
     Alguns móveis, vindos de Niterói, como a cômoda, vou reformar também. Já comprei (em Campos!) uns puxadores de metal para substituir os antigos, redondos, de madeira. A cor mogno, antiquada, será substituída por um tom mais claro. A mesa do computador vai ser trocada, a seu tempo, por outra mais moderna. As janelas do escritório ganharão cortinas ou persianas na e a estante de livros vai receber umas portas de correr de polipropileno (que vi numa revista), que o Ló garantiu que vai fazer, embora não seja seu ofício. Talvez o encomende de um outro profissional. Tudo bem.  E há tanta coisa para fazer ainda, para tornar a casa apresentável! Principalmente na sala. Nem vou enumerar.
      Pena que gostemos tanto de acordar tarde, bater pernas no Centro Histórico, tomar café e almoçar na rua. Embora eu me esforce para fazê-lo em casa. É certo que a maior parte das vezes fazemos isso em casa - além de mais gostoso, é bem mais saudável. Enfim, vamos levando a vida, no ritmo de Paraty, ao qual já nos adaptamos. Que é bem relaxado.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Campos e relembranças

      Fomos ao Rio na segunda-feira passada, mas o destino era a cidade de Campos, aqui no Estado do Rio mesmo. Eu tencionava fazer uma pesquisa no Arquivo Público Municipal, sobre o distrito de Tocos na década de 20 ou 30, onde moraram os pais de Telma (mãe do A.), uma figura insólita para a época em que viveu e que conseguiu, de menina pobre moradora do morro do Cubango, em Niterói, tornar-se uma mulher avançada para sua época, uma espécie de socialite local, recebendo em casa governador de /estado, jornalistas e artistas e frequentando o Cassino Icaraí. Em Campos, ficamos no Palace, o mesmo hotel da vez anterior. De lá, pegamos um táxi para ir até Tocos. O Arquivo fica num prédio do século XVIII, sede do antigo Solar dos Jesuítas e com um ligeiro aspecto de abandono.
      Um senhor na entrada do prédio, que me pareceu um funcionário, disse que eu ali não encontraria "nada, só jornais velhos e ossadas". Não disse isso rindo, mas só podia ser brincadeira. Entramos e fomos atendidos por uma jovem gentilíssima, mas tão tímida que mal levantava os olhos para falar, num tom de voz quase inaudível. Precisei insistir para ver a biblioteca onde, segundo ela, não haveria nada que me interessasse, referentemente ao distrito de Tocos. Subimos uma escada de madeira muito antiga. No topo, à esquerda, ficava a pequena biblioteca, que me pareceu mais para uso escolar do que para outra coisa. Pedi para ver os jornais da época e a muito custo ela trouxe um conjunto de jornais da década de 30, amarelados pelo tempo e presos a uma estaca de madeira.
      Sentada a uma mesa de uma sala contígua, foi com reverência que abri aquelas páginas ancestrais, temendo rasgá-las num gesto impensado. Foi o que aconteceu - fiz um belo rasgo de 10 cm em uma delas. Arrasada, desculpei-me, mas a funcionária mal me ouviu. Sem dúvida, rasgar folhas de jornais antigos, ali, não tinha o mesmo valor intrínseco que eu lhe atribuía. Envergonhada, apesar de tudo, desisti - felizmente, o conteúdo não me interessava. O passo seguinte era a biblioteca. Foi com relutância que ela me levou até lá, dizendo de saída que provavelmente eu não encontraria lá nada que me interessasses. Precisei insistir para ver os livros - ah, acho que tenho uns dois ou três sobre a história de Campos, ela admitiu. Voltou trazendo apenas um. A meu pedido, vieram os outros dois. Anotei seus títulos e ia sair, quando ela trouxe um volume maior, de capa dura. Esse, sobre a Campos do século XVIII, com ênfase nas raízes indígenas da região, estava à venda. Comprei.
      Voltamos ao hotel. Campos dos Goytacazes é uma cidade ampla, com uma bonita beira-rio, mas, como quase todas as cidades brasileiras, carece de atrativos. Não por culpa de seus moradores. Não existe, no Brasil, a cultura da preservação, dos cuidados constantes, da manutenção que enfeita de plantas e flores as ruas, que tapa os buracos, põe cortininhas nas janelas das casas, cuida dos jardins, torna o visual municipal agradável aos olhos. A exceção são as cidades mais ao sul do País, como algumas do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul ...  Quem pensa que cuidar da beleza das cidades é "maquiagem", sob o argumento de que é mais importante construir escolas, hospitais e cuidar da segurança e dos transportes, vê apenas um lado da questão. Uma coisa não exclui a outra.

Cinema

      Mostra Almodóvar na Casa da Cultura, cujas sessões semanais de cinema retornaram com todo o gás. Só para dar uma ideia, logo após a reabertura do espaço do auditório para as sessões, já tivemos Anna Karenina, de Joe Wrigth e uma homenagem ao cineasta  Eduardo Coutinho, com  O princípio e o fim (2005). Agora em abril, a Mostra Almodóvar está exibindo, até o dia 30, alguns dos mais importantes filmes do cineasta espanhol, como Ata-me! (1990), Mulheres à beira de um ataque de nervos (1998), Volver (2006) e Kika (1993). Houve, em fevereiro, uma Mostra Tarantino. e, há poucos dias, vimos o excelente Liv e Ingmar (2012), do cineasta indiano Dheera Akolkar, um documentário sobre a conturbada relação da atriz norueguesa Liv Ulmann com Bergman.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Cotidiano

      A meu lado, na lan house, um estrangeiro no skype, dirigindo-se em espanhol a uma jovem de cabelos castanhos, que surge na tela do computador visivelmente estremunhada e cansada. Ele tem no máximo 30 anos e exibe um cabelão ondulado. Ela tem pele clara, puxada para o mate, e cabelos escuros presos para trás. Fala sem sorrir, de cabeça baixa (sorriu apenas uma vez), parecendo estar entediada. Deve ser puro cansaço, pois tem os olhos meio inchados (como os de alguém que acaba de acordar) e boceja terrivelmente. Imagino que fala do outro lado do mundo, em fuso horário às avessas do nosso. No mínimo deve ser madrugada por lá e ela deveria estar dormindo e não conversando com um amigo num lugar onde já é dia e basta virar a cabeça e ver pela janela um sol de rachar.
      Do meu lado esquerdo, uma outra jovem estrangeira mexe no seu Facebook. Imagino que o rapaz do Skype pode de repente voltar os olhos para a tela de meu computador (como aconteceu comigo) e descobrir que estou escrevendo sobre eles. Parece que estou sendo deseducada, espionando segredos,  mas o que houve é que, ao sentar-me, calhou de um olhar casual meu cair sobre a tela do computador dele. Vi então a figura da moça morena e chamou-me a atenção seu ar entediado. Quanto a ouvir o que ele diz, impossível deixar de fazê-lo. Ele usa fones de ouvido (por isso não sei o que ela diz) e fala em tom de voz normal, facilmente audível. Menciona um livro chamado Inferno, sobre as favelas do Rio (!), cujos direitos está tentando comprar. Mas achou o preço que lhe pediram no Brasil  alto demais, maior do que lhe cobrariam nos EUA.
      Imagino para quê alguém compraria os direitos de  um livro. Claro que para transformá-lo, ou num filme, ou numa peça de teatro. Mais provavelmente para um filme. Trata-se, com quase certeza, de um cineasta. Menciona uma sinfonia de Bach, não cheguei a captar qual. Uma música pela qual "se encantó".  Ela responde alguma coisa e ele, num tom de quem se justifica, menciona novamente a tal música de Bach, pedindo perdão (!) por tê-la mencionado, "eu não sabia que era assunto delicado". Soou como ironia. "Eu só mencionei uma música de Bach que me encantó", repete. E, de repente, encerra a sessão, sem se despedir. Tive a impressão de que foi a moça que desligou na cara dele. Não pareciam estar se entendendo mesmo.
     Estar aqui sentada, vendo o que acontece a meu lado, faz parte da vida em Paraty. Ah, separei uns livros (bons, por sinal) para doação à biblioteca local. Quanto a mim, aguardo que A. chegue da academia para irmos almoçar aqui no Centro.A lan house é nosso ponto de encontro.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Defeitos

      Este blog sou eu - nada de imagens, nenhum enfeite, apenas as palavras, secas e diretas. Creio que meus três leitores aprovariam e o nível de audiência aumentaria bastante se houvesse fotos. Vivemos a era da imagem, mas não acredito que o livro vai acabar, como dizem alguns. Ele sempre será nosso principal portador de cultura para o futuro. Assisti ontem ao programa de Salomão Schvartzmann na tevê, em que ele expressa a mesma ideia. O programa tem entrevistas ótimas, intercaladas por vídeos de concertos de música erudita, com instrumentistas excelentes, especialmente pianistas (isso se explica, segundo o próprio apresentador, porque, a certa altura da vida, Schvartzmann estudou piano). Depois de ouvir concertos como o que exibiu ontem - não me lembro do nome do excepcional pianista, creio que seu sobrenome era Volos - cujas variações sobre a Marcha Turca o deixaram atônito, desistiu da carreira.
      Meu grande defeito é ser extremamente desorganizada. Talvez por excesso de racionalidade - tudo se passa na cabeça, na hora de pôr em prática, a coisa toda não dura mais que uma semana. Projetos, decisões, resoluções, vão por água abaixo em pouquíssimo tempo. Mesmo quando estão dando certo. Na verdade, ainda não entendi como estou conseguindo manter um certo nível de periodicidade aqui - mesmo assim, não muito - nem por que escrevo, já que ninguém me lê. Imagino que pouquíssimas pessoas, se é que alguma, lêem este blog. Já em casa... deixo para o dia seguinte. E os imaginados romances não passam da imaginação. Em tempo, espero que isso mude um dia.